terça-feira, 24 de fevereiro de 2009

Aleida Guevara: “Não tenho esperança em Obama”


Filha mais velha do revolucionário Ernesto Che Guevara, a médica cubana, especialista em alergias de crianças, Aleida Guevara, de 48 anos, é vista na foto ao lado cantando junto do presidente da Venezuela, Hugo Chávez, durante o Fórum Social Mundial, no Pará. Foi de lá que ela conversou com a Folha Universal sobre o futuro da América Latina, as perspectivas do recém-empossado governo de Barack Obama nos Estados Unidos e do que sente ao ver a imagem do pai em roupas, objetos e telas de cinema por todo o planeta. Ao falar das transformações em curso no continente – especialmente na Venezuela de Chávez e na Bolívia de Evo Morales – Aleida cobra uma mudança de postura do Brasil.

1 – Se estivesse vivo, seu pai estaria hoje com 80 anos. Como seria?

Se ele estivesse vivo você não estaria falando comigo agora. Eu estaria cuidando dele de pertinho. Se não tivessem matado meu pai na Bolívia, ele seguiria seu combate na Argentina, que é o país dele. Quem sabe a Argentina seria outra e o continente seria diferente. Isso, infelizmente, nunca poderemos saber.

2 – Como vê a situação atual da América Latina?

Creio que ainda falta muito para o nosso continente. A palavra unidade é linda e há séculos tem sido pouco usada por nosso povo. Essa unidade é possível, e com ela é possível mudar. A partir do que está acontecendo na Venezuela, que é quem atualmente encabeça a mudança, e depois seguindo na Bolívia e no Equador, há alguma possibilidade. Para o Brasil falta muito ainda. Falta ser mais solidário aos povos da América Latina, menos dependente do capital externo, mais defensor da própria terra.

3 – O que achou do filme em que Benício Del Toro interpreta Che? E do dirigido pelo brasileiro Walter Salles?

Não me agradou. Só vi uma parte, não tive ânimo de ver completo (O filme "Che" é dividido em duas partes que, somadas, ultrapassam 4 horas de duração). É um tema muito difícil para mim e muitas coisas não estavam na tela. O do Walter Salles (Diários de Motocicleta) sim me encantou. É ótimo e ele é uma pessoa muito humana.

4 – O que sente ao ver camisetas com a imagem de seu pai?

O capitalismo existe porque utiliza tudo de um jeito comercial, incluindo meu pai. No caso dele, porém, o tiro saiu pela culatra. Trataram de simplificar a imagem, mas não conseguiram. Muitos jovens que usam uma camiseta e não sabem quem ele é um dia vão perguntar. Isso já é positivo. Não gosto de ver a imagem do meu pai em um isqueiro, ou na parte de trás de um jeans. Me parece uma falta de respeito. Mas há também muita gente que usa com amor.

5 – Seu pai era um guerrilheiro. O que pensa de luta armada?

É preciso respeitar. De fora é muito fácil julgar, mas é preciso saber como se vive e como se morre. O movimento pacifista é respeitável também. Se por aí se encontra a solução, aleluia. A guerra é o que há de mais brutal no mundo. É o mais cruel que pode ocorrer, mas, às vezes, é necessária. Não se pode colocar um povo de joelhos. Neste caso é preciso lutar, e aí eu respeito.

6 – Como médica, como vê o sistema público de saúde no Brasil?

Primeiramente, não gosto de julgar coisas que vivo pouco. Depois, o sistema de saúde no Brasil está muito acompanhado da privatização de hospitais e isso é algo muito diferente da realidade que vivo. A saúde é um direito do povo, não pode ser convertido em negócio. Não me sinto capaz de comparar. Vivi situações muito duras na América Latina. No Paraguai havia uma indígena doente, mas eu não podia pedir um raio-X para saber o que ela tinha porque ela não teria como fazer. Na África, em Angola, com 26 anos, tratei de três meninos com edema cerebral e eu só tinha um pacote de manitol, a medicação necessária. Só poderia salvar a vida de um deles. Isso me golpeou tanto que até hoje tenho horror ao racismo e à colonização.

7 – Como foi a experiência na África?

Aprendi uma coisa linda em Angola. Na tevê, havia um ator negro brasileiro que pegou a mão do apresentador e perguntou: "Se ponho a mão na sua, que cor é a sombra? Escura". É isso o que penso. Se colocamos as mãos juntas em igualdade de condições, a sombra será da mesma cor.

8 – Tem esperança em Barack Obama?

A situação de Cuba mudará? Não. Falta poder a ele. Os presidentes dos Estados Unidos são marionetes do Senado e das grandes multinacionais. Não creio que Obama possa enfrentar a todos, mesmo que queira. Cuba é um caso muito especial e mais difícil. Representa o que os Estados Unidos tentaram negar: a existência sem ser cópia de outro modelo político. O bloqueio não vai mudar. É uma lei do Senado, e ele não pode mudá-la. Obama disse que vai fechar a prisão de Guantánamo. Perfeito! Estamos de acordo que feche de imediato, mas estaríamos de acordo também que nos devolvessem a base naval a Cuba. (O local é controlado pelos Estados Unidos onde a prisão está instalada.)

9 – Como estão as mudanças políticas em curso em Cuba?

Não falamos em mudanças, mas sim em continuidade. Em Cuba, o socialismo não foi imposto, foi criado como um modo de melhorar. Isso não se perde. Meu pai, o Che, sempre dizia: "é preferível ser seguido do que empurrar as pessoas". Se forçadas, um dia as pessoas se perguntam "por quê?". Se são convencidas do que se pode fazer e como fazer, é diferente.

10 – Mas há eleição para chefe de Estado e democracia em Cuba?

O problema é como vocês veem a democracia. A burguesia diz que só há democracia onde há mais de cinco partidos. A palavra democracia significa "poder do povo" e em meu país há poder do povo, só que há um só partido. Nós somos socialistas, é diferente, mas nós temos eleições populares de verdade. As pessoas no bairro pedem que seja um representante por acreditar em você, no que está sendo dito, não por propaganda. Falar em ditadura é falta de conhecimento.

Por Daniel Santini, de Paraupebas (PA), da Folha Universal

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