quinta-feira, 30 de abril de 2009

O retrato do jovem brasileiro

Segundo o Ipea, a população brasileira é composta por 51 milhões de jovens, na faixa etária de 15 a 29 anos. Eles vivem em tribos, temem a violência e o desemprego, são cada vez mais precoces e, por vezes, conservadores. O retrato dos jovens no mundo demonstra que eles são mais atuantes e conscientes de seu papel na sociedade.

Segundos dados divulgados pelo Instituto de Política e Economia Aplicada (Ipea), a população brasileira é compreendida por 51 milhões de jovens, na faixa etária de 15 a 29 anos. De acordo com o instituto, o principal problema enfrentado pela juventude é a falta de educação. Sem acesso a um sistema educacional eficiente, ela sofre com a escassez de oportunidades no mercado de trabalho e o aumento da violência.Entre os jovens na faixa dos 15 aos 17 anos, apenas 48% estão matriculados no ensino médio. Nesta faixa etária, 18% estão fora das escolas e o percentual de evasão eleva-se a 66% na faixa dos 18 a 24 anos. As principais causas para tais números, no caso dos meninos é o trabalho, para as meninas é a gravidez na adolescência.A procura de um trabalho é um dos principais motivos para os jovens de baixa renda deixarem tão cedo a escola. Segundo o professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Ceará (UFC) e membro do Laboratório de Estudos da Violência, Domingos Abreu, enquanto nos países ricos os jovens podem permanecer mais tempo fora do mercado de trabalho, no Brasil as condições de vida da maior parte dos indivíduos os obriga a procurar um emprego cedo.´No Brasil, não se permite aos jovens apenas estudar. Eles precisam trabalhar para sobreviver. Além disso, há uma expectativa muito grande dos pais para que eles ajudem no orçamento doméstico´, avaliou o sociólogo.Vida adultaDe acordo com o professor, para boa parte da juventude, a entrada no mercado de trabalho não significa apenas a possibilidade de um futuro promissor, mas é também a passagem para uma vida adulta. ´Na verdade, os jovens das classes mais baixas querem arranjar um emprego assim que podem. Para os jovens das classes populares, a vida adulta começa muito antes do que para os jovens da classe média´, disse o professor.

Por outro lado, a falta de qualificação encaminha esses indivíduos para o desemprego. A falta de trabalho atinge 46% do total de jovens entre 15 anos e 29 anos; e 50% dos ocupados entre 18 anos e 24 anos são assalariados sem carteira.ViolênciaSeguido pelo desemprego, um outro grande problema apontado pela juventude é o excesso de violência. O Ipea revela que as duas maiores causas de mortes na população juvenil: a violência e os homicídios correspondem a 38% das mortes, enquanto os acidentes de trânsito ceifam outros 27%.Segundo o relatório do Ipea, a violência faz com que ´esse período etário seja considerado de alto risco, quando poderia ser um dos mais saudáveis do ciclo vital´. De acordo com o levantamento, o número de mortes de indivíduos do sexo masculino é maior que o do feminino devido à grande exposição dos homens à violência.´Nas grandes cidades, há um sentimento de insegurança. Os jovens representam a faixa etária mais atingida pela violência e os homens são tidos como vítimas preferenciais dos homicídios´, disse o sociólogo Domingos Abreu.Além da violência, comportamentos de risco são também responsáveis por óbitos entre jovens no Brasil. Para Domingos Abreu, o governo precisa adotar políticas para a juventude que estejam ligadas à abertura de postos de trabalho, moradia e melhores condições educacionais. ´A escola deve ser um campo de atração para os jovens. Elas devem propor algo a mais para a juventude brasileira´, disse.

De acordo com Domingos Abreu, os investimentos em educação devem atender a demandas regionais de qualificação profissional.

INDEPENDÊNCIA FINANCEIRA - Programa incentiva empreendedorismoFortaleza, quarta maior cidade brasileira em termos de população, tem mais de 700 mil jovens na faixa etária de 15 a 29 anos. Assim, como a maior parte das metrópoles, a juventude fortalezense também luta por melhores oportunidades de emprego.

O Programa CredJovem Solidário, criado pela Prefeitura Municipal de Fortaleza, em 2006, tem o objetivo de incentivar o empreendedorismo entre os jovens da capital, criando novas oportunidades de geração de renda entre a juventude da periferia.

O programa oferece créditos subsidiados a grupos de jovens, na faixa etária de 18 a 20 anos, interessados em montar o próprio negócio. Segundo o secretário da Coordenadoria Especial de Políticas Públicas para a Juventude, Afonso Tiago de Sousa, em três anos, o CredJovem já beneficiou 415 jovens e possibilitou a abertura de 113 pequenas empresas. ´O resultado é satisfatório o Programa trabalha não com o empreendedorismo competitivo, mas com o solidário. Ele estimula o jovem a se organizar e produzir de forma coletiva´, avaliou.

Beneficiados - Os participantes do programa devem ser estudantes ou egressos de escolas da rede pública. Para concorrer ao financiamento, os jovens devem elaborar um plano de negócio em parceria com alguma entidade não governamental que atue na linha de grupos de produção. ´Os jovens beneficiados têm a possibilidade de devolver esse recurso em até seis meses e o montante é dividido em 12 parcelas sem juros´, explicou o gerente da célula de trabalho e juventude da SDE, Francis Almeida.Durante a aprovação dos projetos, a SDE avalia a viabilidade comercial e financeira, a potencialização do impacto sócio-econômico, além da relação da empresa com a comunidade. ´Após dois anos das empresas constituídas, 80% dos empresários conseguiram sobreviver. A idéia é que em quatro anos o CredJovem atenda a uma média de 600 até 800 jovens´, disse Almeida.

Para Juliana Siqueira, 25, o CredJovem significa a independência financeira para quem veio das classes baixas. ´O programa é o meio mais viável e interessante para quem vem de escola pública e da periferia´, disse a jovem que foi beneficiada com o crédito financeiro e hoje tem uma sorveteira com a cunhada e com o primo.

GESTÃO JUVENIL - Políticas públicas priorizam juventudeAs pesquisas apresentadas sobre a juventude brasileira reforçam a necessidade de criação, nos últimos tempos, de políticas específicas para esse segmento em todas as esferas governamentais. Formação escolar, capacitação profissional, programas de prevenção às drogas e contra a violência são algumas das linhas de ação do governo para melhorar a qualidade de vida dos jovens.

Segundo o presidente do Conselho Nacional da Juventude, David Barros, a preocupação sobre a temática jovem começou a ter mais força, na gestão pública, a partir da última década e deve-se, sobretudo, as reivindicações das próprias organizações juvenis. ´A partir daí, os governos no âmbito municipal, estadual e da União começaram a tecer experiências e projetos pilotos de políticas para jovens em sua maioria relacionadas à educação e trabalho”, avaliou David.

O secretário nacional de Juventude, Beto Cury, destacou como resultado significativo da preocupação do Governo Federal com as temáticas juvenis a criação da Política Nacional de Juventude, da Secretaria Nacional de Juventude e do Conselho Nacional de Juventude. ´Um aspecto relevante dessa política é a dimensão institucional, que prevê a multiplicação de espaços específicos de juventude como Secretarias e Conselhos em âmbito estadual e municipal. Embora já tenhamos avançado, uma das nossas metas é justamente consolidar esses espaços para que possamos concretizar uma política juvenil em nível nacional´, declarou o secretário.

Para o presidente do CNJ a participação juvenil nas decisões políticas está mais consolidada ultimamente. ´Os jovens querem ser agentes da transformação social e a política. Investir na juventude é investir em novas formas de pensar a sociedade, em novas lideranças e gestar nos sonhos e esperanças da juventude brasileira um novo Brasil, concluiu.

Por JULIANNA SAMPAIO (Diário do Nordeste)

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